sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Harvard 02






A questão da disparidade dos caminhos seguidos pelos Estados Unidos da América e pelo Brasil já rendeu copiosos rios de tinta.

Sociólogos, antropólogos, historiadores, geógrafos e cientistas políticos já se debruçaram sobre o tema, explorando diversos pontos relativos a esta questão.

Todavia, dentre muitos quesitos, o desempenho acadêmico dos dois países é uma das mostras mais seguras do quanto os dois países - ambos originários de uma realidade colonial que embora específica não deixou de ser marcada pelo mandonismo e arbitrariedade metropolitana - chegaram a pontos totalmente diversos no campo científico e intelectual.

A comprovar esta disparidade, o ranking dos laureados pelo Prêmio Nobel fala por si mesmo.

Para conferir melhor: até o dia de hoje, 26 de Setembro de 2016, a famosa e prestigiadíssima Harvard University tem 47 dos seus graduados dentre os laureados com o Prêmio Nobel.

Este número é mais do que a maior parte dos países do mundo conseguiram. Para apimentar esta discussão, retenha-se que Harvard é uma universidade privada, um autêntico anátema para ampla maioria da intelectualidade politicamente engajada do país.

Aliás, quando as nações ostentam um, dois ou três agraciados com esta cobiçada comenda, o contentamento é geral. Justificadamente, os premiados se tornam ícones nos países nos quais atuam. Afinal, trata-se apenas e tão somente do Prêmio Nobel, a mais alta honraria científica do Planeta.

Contudo, saliente-se que o Brasil não tem nenhum Prêmio Nobel.

Ponderando a partir deste prisma, Harvard teria 47 vezes mais laureados que o Brasil caso nosso país tivesse ao menos um Prêmio Nobel.

Acontece que o número de laureados brasileiros com o Nobel é zero. E quarenta e sete vezes zero é zero. E zero é zero: nada, nicas, coisa nenhuma.

Certo é que aparte notórias exceções, a pequena fração de trabalhos científicos brasileiros conotados por reconhecimento internacional possui relação umbilical com o passado histórico, a começar pelo modelo de colonização aqui implantado, ao qual se somaram as vicissitudes e os malfeitos da história imperial e republicana.

Por outro lado, as antigas Treze Colônias, o espaço núcleo dos Estados Unidos da atualidade, numa clara linha divisória na comparação com o mundo latino-americano, formavam um espaço dinâmico regrado por um estado de espírito - ethos no jargão antropológico - absolutamente diferenciado, matricial para a consolidação dos Estados Unidos enquanto potência científica.

Neste exato sentido, anote-se que os EUA se caracterizaram, desde o início da colonização, pela abertura para com o conhecimento científico. Na América do Norte, a pesquisa e a curiosidade intelectual estiveram livres do engessamento ideológico, estamental, político e religioso que imperavam no velho continente.

Para certificar esta premissa, basta assinalar que Harvard University foi fundada praticamente nos primeiros momentos da colonização. A fundação de Harvard acontece em 1636 na cidade de Boston, no Massachusetts. Isto é: quase 140 anos antes da autodeterminação nacional.

Deste modo, para além da emblemática atuação do cientista estadunidense Benjamim Franklin (Figura 1), numerosa galeria de inventores, sábios e homens de ciência se destacaram em praticamente todos os campos do saber, da botânica à engenharia, da filosofia à química, da matemática à geografia.


FIGURA 1 - Benjamim Franklin (1706-1790), foi a mais notável personalidade científica dos Estados Unidos no período colonial. Distinguiu-se particularmente no campo da eletricidade, pesquisas que lhe granjearam reputação internacional. Além de ser eleito membro da famosa Royal Society, foi laureado em 1753 com a medalha Copley. Como reconhecimento das suas descobertas, seu sobrenome passou a designar uma medida de carga elétrica. Franklin demonstrou que os trovões são um fenômeno elétrico, noção básica para seu principal invento, o pára-raios. Foi também criador do franklin stove - um aquecedor a lenha muito popular nos EUA - e também das lentes bifocais.


Numa mostra sintética, é possível citar Eli Whitney, Alexander Garden, Thomas Godfrey, David Rittenhouse, Sybbila Masters, James Logan, Thomas Brattle, Joseph Priestley, John Winthrops, etc., expoentes de notória geração de saber sistematizado, que antecedeu em longa data a autodeterminação política.

Seria imperioso anotar, o sucesso dos Estados Unidos em diversos campos - e não só do saber científico - foi respaldado pelo claro incentivo ao conhecimento, ao qual se somou o arrojado empreendedorismo dos colonos anglo-americanos nos afazeres da economia.

Não há dúvida alguma que a o desempenho questionável da universidade brasileira na comparação com os Estados Unidos - seja o polo acadêmico público ou o privado - não poderia ser esgotada unicamente neste post. O problema é complexo e profundo, não admitindo meras simplificações.

Mas seria inescapável uma crítica ao negacionismo e à empáfia da universidade brasileira.

Por exemplo, a imprensa nacional entra em êxtase quando a USP figura entre as cem ou duzentas melhores universidades globais e repetidamente, é repisado o argumento de que esta universidade é a melhor da América Latina.

Todavia: e daí? Entre as cem melhores? E isto em vista de que se posiciona na rabeira desta centena? Por que não entre as vinte ou dez melhores?

A melhor da América Latina? Novamente: e daí? Na verdade isto apenas significa pontuar que a USP se destaca num conjunto de universidades cuja produção científica, caso desaparecesse, não redundaria em nenhum vazio irrecuperável para a ciência mundial.

E indo direto ao ponto: Onde está o Prêmio Nobel da USP?

Em tempo: além de não existir termo de comparação do Brasil com os Estados Unidos no quesito Prêmio Nobel, sublinhe-se que mesmo no campo do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), não somos páreo para nenhum dos parceiros do bloco.

A Rússia teve 27 dos seus filhos laureados com o Nobel; A Índia soma 11 laureados; A China arrematou 12 Prêmios Nobel. A África do Sul, que sendo um país africano termina desqualificada por correntes de opinião preconceituosas e racistas, amealhou nada menos que 11 Prêmios Nobel.

Dito de outro modo: a África do Sul teria onze vezes mais Prêmios Nobel do que o Brasil, caso, é claro, se o país tivesse ao menos um Nobel.

E o fino da bossa é saber que os argentinos, "los hermanos", colecionaram cinco Prêmios Nobel. A Costa Rica, um ganhador. Trinidad-Tobago, também tem um. A pobre Guatemala, dois. O folclorizado México, três. A diminuta Santa Lúcia, dois. Até mesmo a impagável Venezuela ostenta um sábio ganhador do Prêmio Nobel.

Estas conquistas parecem pequenas diante de 356 norte-americanos, 118 britânicos, 103 alemães, 67 franceses, 31 suecos, 25 canadenses, 24 japoneses, 21 austríacos e 20 italianos honrados com o Nobel. Porém muitíssimo se lembrarmos do ranking zero do Brasil.

Certamente Harvard expressa uma realidade muito diferente da nossa e assim, os termos de numéricos de comparação podem não ser aqueles dotados de força argumentativa mais consistente.

Mas, é inegável o atraso da academia brasileira. Aparte alunos e professores virtuosos que encontramos em qualquer sala de aula, o gap do país é tremendo.

Numa comparação entre Harvad e a universidade brasileira, considere-se que a Escola Universitária Livre de Manaus, a instituição de ensino superior mais antiga do Brasil, foi fundada apenas em 1909. Ou seja: vinte anos após a independência.

Sendo este um problema - tal como consignado, amplo e complexo - este post deixa então o registro de somente uma ponderação, atinente à mistificação com a qual muitos pretendem driblar este constrangimento.

O geógrafo brasileiro Milton Santos (aliás, Prêmio Vautrin Lud, o mais proeminente da geografia mundial, considerado o Nobel da especialidade), advertiu em vários pontos da sua majestosa obra a tendência perversa do mascaramento das contradições ao longo do processo de construção da formação social e espacial brasileira.

Este fato é notado quando a presidente cassada Dilma Rousseff argumentava, por exemplo, que o país iria quadruplicar o número de doutorandos; é evidente nas deficiências cabais que podem ser encontradas nos sonolentos cursos de pós-graduação; faz presença também, na própria narrativa das universidades públicas e privadas, que passaram a abusar do adjetivo “científico”.

Nos últimos anos, tudo no universo acadêmico passou a ser rotulado como "científico": seminários científicos, textos científicos, argumentação científica, postura científica, discurso científico, etc. Isto devido ao simples fato de que na realidade, não estamos produzindo ciência na cadência e na excelência que o mundo global exige.

Isto posto, não é com fantasias numéricas, com departamentos despreparados e rótulos abduzidos de relação com o real que o problema da ciência brasileira será solucionado.

Um elemento primordial da mentalidade yankee - ou do seu ethos - é o seu senso de praticidade, de relação objetiva com a realidade, da valorização do estudo, da meritocracia e da dedicação como um dinâmico modus operandi primordial para uma vigorosa vida acadêmica.

Algo que tem estado notoriamente ausente nas diretrizes adotadas para vitaminar o progresso da ciência brasileira.

Falha que no final das contas, explica porque Harvard não está no Brasil.


Esta e outras notas histórico-culturais estão comentadas e indexadas à obra GUERRA REVOLUCIONÁRIA AMERICANA (Maurício Waldman, Editora Kotev, Julho de 2016).



SAIBA MAIS

Portal da Livraria Cultura (São Paulo, Brasil):
http://www.livrariacultura.com.br/p/a-guerra-revolucionaria-americana-102629158

Plataforma Internacional Kobo (Ottawa, Canada):
https://store.kobobooks.com/en-us/ebook/a-guerra-revolucionaria-americana

Librerie La Feltrinelli (Milano, Italia):
http://www.lafeltrinelli.it/ebook/mauricio-waldman/a-guerra-revolucionaria-americana/1230001215205


Conheça outros títulos de Maurício Waldman na forma de e-books:


Portal da Livraria Cultura:

Plataforma Internacional Kobo:

Librerie La Feltrinelli:


MAURÍCIO WALDMAN é jornalista, antropólogo, pesquisador, editor, consultor ambiental e professor universitário. Autor de 16 livros e de mais de 600 artigos, textos acadêmicos e pareceres de consultoria, Waldman é graduado em Sociologia (USP (1982), Mestre em Antropologia (USP, 1997), Doutor em Geografia (USP, 2006), Pós Doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), Pós Doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e Pós Doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015).

MAIS INFORMAÇÃO:

Portal do Professor Maurício Waldman -  www.mw.pro.br 
Currículo Plataforma Lattes-CNPq - http://lattes.cnpq.br/3749636915642474 
Verbete edição inglesa da Wikipédia -  http://en.wikipedia.org/wiki/Mauricio_Waldman 
Contato E-Mail: mw@mw.pro.br 


PARA SEGUIR ESTE BLOG: Quem desejar seguir o Blog, existe um botão de Seguir destacado em azul localizado na lateral direita, disponível aos interessados que possuem uma conta Google, que poderão deste modo passar a receber automaticamente notificações a cada nova postagem em FOCO DE FATO.

Islamofilia 02




Todos que assistiram conferências sob minha titularidade sabem da prática que adoto de discutir imagens e peças alegóricas. O procedimento é uma constante nas minhas conferências desde os anos 1990. Afinal, como ponderou o antropólogo Edward Hall, os humanos são uma espécie que sobremaneira é propensa a valorizar a informação visual.

Certo dia, quando estava discorrendo sobre a projeção geopolítica dos Estados Unidos, fiz uso da magnífica peça alegórica de autoria do pintor estadunidense Dennis Malone Carter (1827-1881), um trabalho datado de 1878 e cuja temática alude a uma pouco comentada investida dos fuzileiros navais norte-americanos no litoral da atual Líbia no início do século XIX, conforme imagem reproduzida como segue:




Prontamente então, um dos presentes à palestra não só rotulou a pintura como islamofóbica como igualmente iniciou uma apaixonada catilinária relativa ao hegemonismo ocidental, ao histórico de agressões ao povos do Terceiro Mundo, sobre a arrogância imperialista, o racismo e como seria previsível, dissertou longamente a respeito da cultura de ódio cultivada pelos círculos militaristas norte-americanos.

Tratava-se evidentemente de um membro do seleto conclave dos “caros amigos”, que numa fração de segundo se investiu do papel de um expoente inflamado a denunciar um longo prontuário de sevícias promovidas pelo imperialismo.

Bem, para começo de conversa, creio que primeiramente as pessoas deveriam se informar antes de serem tão incisivas nos seus julgamentos.

Deste modo cabe preliminarmente registrar que uma rápida busca no Google com o termo islamofobia rapidamente nos presenteia com 1.180.000 resultados (certificação realizada na manhã do dia 26 de Setembro de 2016).

Todavia, caso os curiosos busquem pela palavra que seria antônimo de islamofobia - isto é, islamofilia - o Google insiste na busca por islamofobia, apresentando as mesmas 1.180.000 entradas. Mas alternativamente oferece uma segunda opção: “ao invés disso, pesquisar sobre islamofilia”. 

É aí que tomamos conhecimento do miserável espólio de 7.550 citações a respeito de islamofilia, basicamente em castelhano, italiano e em polonês. 

Note-se que nenhuma das entradas direcionava para uma peça textual mais elaborada em português. O que está disponível na Internet são apenas dois ou três artigos na nossa língua, por sinal pouco esclarecedores sobre este tema. 

Este resultado pode até parecer estranho, mas não é. 

Pelo contrário, ao se tornar uma terminologia icônica do vocabulário crítico, engajado e supostamente contestador, o largo trânsito do termo islamofobia revela que antes de se pretender defender o Islam, o que está realmente em jogo é o ataque e a desconstrução do mundo ocidental.

Claro está que a islamofobia é incompatível com uma perspectiva inclusiva da Modernidade. Não só por atentar contra uma vasta comunidade de humanos mas igualmente por desqualificar o legado de uma civilização que não obstante ter perdido seu ímpeto inovador, não pode ser simplesmente borrada por sentimentos racistas e preconceituosos.

Anote-se que a civilização islâmica desenvolveu engenhosas máquinas hidráulicas, artesanato refinado, tratados de farmacopéia e medicina, inventários de biologia e botânica, compêndios de química, manuais de metalurgia, métodos de irrigação e drenagem, obras arquitetônicas, artes náuticas, levantamentos cartográficos, tratados de história, de astronomia e enormes avanços na matemática e na álgebra.

O domínio conquistado no plano do debate intelectual, obtendo inclusive grande reconhecimento junto à Europa medieval, foi incontestável. Uma prova do que estou colocando é registrado pelo geógrafo francês Roland Breton, um famoso especialista em geografia das civilizações.

Breton, ponderando sobre o acervo das bibliotecas do mundo muçulmano no período do seu apogeu, sem maiores delongas observa que no século IX o Califa de Bagdá fundou a Casa da Sabedoria, uma biblioteca que reunia um milhão de volumes; no século X, o maioral de Córdoba reuniu um acervo de 400.000 tomos para consulta pública e o Califa do Cairo, 1,6 milhões, dos quais 6.000 eram títulos de matemática e 18.000 de filosofia.

Mas, confira-se que no mesmo período, Carlos V, o Sábio, rei da França, tido como patrono das artes e fundador da primeira biblioteca real francesa, cantado em prosa e verso nas crônicas ocidentais, a muito custo conseguiu reunir 900 livros na sua corte. Ainda assim um pecúlio que praticamente constituía um regalo do mandatário, vedado ao comum dos mortais.

Portanto, se torna imperioso aconselhar mais cuidado aos islamofóbicos de plantão quando estes abrem sua grande boca. Por outro lado, o mesmo deve ser recomendado aos islamofílicos, especialmente nas suas vertentes ideológicas, envenenadas por um ódio incontrolável a tudo que seja referente ao Ocidente.

Neste sentido, analisemos, pois a polêmica imagem que induz surtos de sentimentos antiocidentais.

Retenha-se que a pintura de Dennis Malone Carter retrata um episódio raramente citado nos livros de história. A imagem tematiza a primeira grande incursão norte-americana no espaço mundial, que ocorre poucos anos após a independência, nos primórdios do Século XIX, nas longínquas praias do Norte da África, episódio que passou a ser conhecido como Guerras Berberes [1].

Isto acontece nos anos 1801-1815, quando os Estados Unidos, após uma sucessão de incidentes envolvendo escravização de marinheiros dos EUA e aprisionamento ilegal de navios sob sua bandeira por piratas líbios e argelinos - transgressões praticadas com o objetivo de obter resgate - declaram guerra aos corsários de Trípoli, cidade situada na atual Líbia.

Assim, os EUA, na ocasião uma nação praticamente recém independente, não só não se curvaram às exigências dos regentes de Trípoli, como passaram às vias de fato.

Numa ação ousada, esquadrões navais dos EUA fortemente armados, em obediência às ordens diretas de Thomas Jefferson (1743-1826), terceiro presidente dos Estados Unidos, foram despachados para Trípoli.

Os norte-americanos escolheram a dedo os soldados e marinheiros que participariam nesta perigosa expedição punitiva. Amarelões, covardes, capitulacionistas e fracos foram descartados.

Apenas os destemidos e os que haviam dado provas de notória coragem e determinação nos combates durante a guerra pela independência contra os britânicos integraram o corpo da missão.

Sem aviso prévio, a armada cruzou todo o Atlântico, entrando sorrateiramente no Mar Mediterrâneo, bem nas barbas do território pirata. 

Chegando a Trípoli, a marinha dos EUA encetou um bombardeio devastador da cidade, enquanto que com a cobertura do fogo naval, os fuzileiros navais destruíam os navios inimigos nas docas e ocupavam as fortalezas da cidade, esmagando sem piedade a resistência desesperada dos corsários.

É o que transparece na pintura de Malone. O assalto dos fuzileiros navais dos EUA às instalações dos corsários em Trípoli, na Líbia, aos três de Agosto de 1804, foi coroado de sucesso.

Na imagem, o personagem em primeiro plano em combate mortal com um pirata é o tenente Stephen Decatur Jr. (1779-1820), herói militar da marinha norte-americana. Nesta época não haviam drones nem bazucas. Era quase tudo no mano a mano.

O texto imagético igualmente reproduz a fúria dos combates, que aparte o gosto nacionalista da pintura, é condizente com um confronto sangrento e mortal.

Foi assim que os piratas berberes, que simplesmente se julgavam a salvo de qualquer castigo, pagaram caríssimo pela ousadia em ameaçar a paz nos oceanos. Aliás, uma lição merecida para uma ralé responsável por toda sorte de atrocidades, malfeitos e patifarias. 

No frigir do conflito, ações punitivas de rescaldo nesta mesma região, contra o Paxá de Argel, deixaram novamente claro que os Estados Unidos não estavam dispostos a tolerar qualquer ameaça à navegação e ao comércio.

Diante da furiosa incursão norte-americana, os líderes locais foram forçados a recuar e concertar acordo com os EUA, um êxito que na época, fez a opinião pública mundial perder a respiração.

Claro está que apenas a precipitação pode entender a obra de Malone como uma peça imagética islamofóbica. Ora, isto é simplesmente ridículo. Tratava-se sinteticamente de limpar a orla do Mediterrâneo de uma malta de bandidos e de uma súcia de saqueadores.

Todavia, restaria aos incautos detectar na bandeira vermelha com a meia lua e a estrela um indicativo dos sentimentos preconceituosos de Dennis Malone contra o Islam e a pregação muçulmana.

Mas não é nada disto. A bandeira reproduzida na imagem é da Turquia, nação majoritariamente maometana que na época, detinha soberania formal sobre o litoral do Norte da África.

Entretanto, cabe mais um recado aos caros amigos: a bandeira da Turquia, a despeito de apresentar uma simbologia identificada pelos ocidentais como muçulmana, não é islâmica.

A meia lua e a estrela é um símbolo muito difuso nas culturas da Ásia Central, região de onde migraram os otomanos para fundar o Império Turco, extinto no início do século passado. 

Nesta linha de argumentação, sendo um símbolo identitário não-religioso, a simbologia da velha bandeira permaneceu como pendão nacional da novel República da Turquia.

Portanto, é neste caso um emblema com conotações étnicas e nacionais, confirmado pelo imaginário dos povos estepários da Ásia Central, e não pela mensagem do profeta Maomé.

Daí que a islamofobia, caso busque por maior soldadura conceitual, deve se nutrir de estudo e reflexão. 

Isto sob a pena de ser transformada no que infelizmente tem se revelado: um discurso muitas vezes marcado por inconsistências, nada afeito às contradições do processo histórico e de fato pouco empenhado em reconhecer as realizações da majestosa civilização que em tese, estaria engajado em defender.

Nesta perspectiva, em muitos casos a argumentação anti-islamofóbica se torna simplesmente numa semântica vazia, raivosa, caricatural e intempestiva, carente de subsídios históricos, culturais e até mesmo factuais.

Deste modo, passa a corporificar uma narrativa enviesada, a desvelar uma islamofilia ideologizada e inconsequente: a Islamofilia dos idiotas.


Esta e outras notas histórico-culturais estão comentadas e indexadas à obra GUERRA REVOLUCIONÁRIA AMERICANA (Maurício Waldman, Editora Kotev, Julho de 2016).




SAIBA MAIS SOBRE ESTA OBRA:

Portal da Livraria Cultura (São Paulo, Brasil):
http://www.livrariacultura.com.br/p/a-guerra-revolucionaria-americana-102629158

Plataforma Internacional Kobo (Ottawa, Canada):
https://store.kobobooks.com/en-us/ebook/a-guerra-revolucionaria-americana

Librerie La Feltrinelli (Milano, Italia):
http://www.lafeltrinelli.it/ebook/mauricio-waldman/a-guerra-revolucionaria-americana/1230001215205


SOBRE RACISMO E A POLITIZAÇÃO DO PRECONCEITO, DUAS DICAS:



SAIBA MAIS SOBRE ESTAS DUAS OBRAS:

Portal da Livraria Cultura (São Paulo, Brasil):
http://www.livrariacultura.com.br/p/cartografias-do-racismo-arquetipos-fantasmas-e-101543360

http://www.livrariacultura.com.br/p/cartografias-do-racismo-imaginario-101684406

Plataforma Internacional Kobo (Ottawa, Canada):
https://store.kobobooks.com/en-us/ebook/cartografias-do-racismo-arquetipos-fantasmas-e-espelhos

https://store.kobobooks.com/en-us/ebook/cartografias-do-racismo-imaginario-discriminacao-racial-e-espaco

Librerie La Feltrinelli (Milano, Italia):
http://www.lafeltrinelli.it/ebook/mauricio-waldman/cartografias-do-racismo-arquetipos-fantasmas/1230001145687

http://www.lafeltrinelli.it/ebook/mauricio-waldman/cartografias-do-racismo-imaginario-discriminacao/1230001145670

CONHEÇA OUTROS TÍTULOS DE MAURÍCIO WALDMAN NA FORMA DE E-BOOKS:

Portal da Livraria Cultura:
http://www.livrariacultura.com.br/busca?N=0+102281&Nr=AND%28product.siteId%3Acultura%2COR%28product.catalogId%3Adefault_catalog%29%29&Ntt=Maur%C3%ADcio+Waldman

Plataforma Internacional Kobo:
https://store.kobobooks.com/search?Query=%22maur%C3%ADcio+waldman%22&pageNumber=2

Librerie La Feltrinelli:
http://www.lafeltrinelli.it/fcom/it/home/pages/catalogo/searchresults.html?prkw=Maur%C3%ADcio+Waldman&cat1=&prm=


MAURÍCIO WALDMAN é jornalista, antropólogo, pesquisador, editor, consultor ambiental e professor universitário. Autor de 16 livros e de mais de 600 artigos, textos acadêmicos e pareceres de consultoria, Waldman é graduado em Sociologia (USP (1982), Mestre em Antropologia (USP, 1997), Doutor em Geografia (USP, 2006), Pós Doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), Pós Doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e Pós Doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015).

MAIS INFORMAÇÃO:

Portal do Professor Maurício Waldman:  www.mw.pro.br 
Currículo Lattes-CNPq: http://lattes.cnpq.br/3749636915642474 
Wikipédia (Biog.): http://en.wikipedia.org/wiki/Mauricio_Waldman 
Contato E-Mail: mw@mw.pro.br



PARA SEGUIR ESTE BLOG: Quem desejar seguir o Blog, existe um botão de Seguir destacado em azul localizado na lateral direita, disponível aos interessados que possuem uma conta Google, que poderão deste modo passar a receber automaticamente notificações a cada nova postagem em FOCO DE FATO.








[1] A orla litorânea norte-ocidental da África do Norte foi, desde a antiguidade clássica, tradicionalmente reconhecida no imaginário geográfico ocidental como Berbéria.















Haiti 02


Reza a boa antropologia, os símbolos constituem um manancial de significados, que além de expressarem idéias e sentimentos, modelam e ofertam sentido às relações que mantemos com o mundo real.

Neste sentido, os símbolos transmitem mensagens, expectativas e noções, captadas, entendidas e amplificadas pelo público iniciado nos seus segredos.

Assim, mesmo quando mascaradas, travestidas ou introjetadas em outros contextos, as simbologias mantém a vivacidade e a determinação dos conceitos e das concepções.

Este seria o caso da bandeira do Haiti, expressão máxima da grandiosa Revolução Haitiana (1791-1804), a maior insurgência bem sucedida de escravos da história mundial.

Esta luta foi a única que desafiou com sucesso três grandes potências ocidentais: França (a potência colonizadora), a Espanha e o Reino Unido.

Dura, longa e violenta, a luta contra o colonialismo francês estendeu-se até o ano de 1803, quando os haitianos, sob comando de Jean-Jacques Dessalines, assombraram o mundo ao impor  na famosa Batalha de Vertières, uma impressionante derrota ao bem armado corpo expedicionário que fora despachado por Napoleão ao Haiti para sufocar a rebelião negra.

Nada semelhante a isto acontecera na história mundial. Seria como registrar uma derrocada da República Romana diante do exército de Espartacus ou a capitulação do esquema latifundista diante das milícias quilombolas.

Os haitianos estavam empolgados por um intenso e irrefreável fervor antiescravista, anticolonial e antifrancês, temperado com notas candentes da filosofia iluminista.

Mas de igual modo, os revoltosos eram embalados pelas vozes das entidades com as quais se comunicavam através dos rituais da religião Vodu, trazidas da África e com enorme prestígio nas terras da América.

Isto posto, atando o que ponderamos no início deste post com a bandeira haitiana, voltemos nossa atenção para alguns fatos bastante reveladores a respeito do pendão nacional deste país caribenho.

A imagem que acompanha este texto reproduz o brasão de armas da República do Haiti, ao que tudo indica oficializado em 1807, poucos anos após a confirmação da independência (1804). 

Como é possível observar, este emblema nacional mostra seis bandeiras do país - três de cada lado - postadas a partir da palmeira situada ao centro da imagem e dois canhões, seis baionetas e dois machados, também lado a lado.

No gramado são encontradas duas cornetas, duas âncoras e bem próxima de um tambor, uma corrente partida. Encimando a palmeira, está um barrete frígio, símbolo identificado com as lutas iluministas e republicanas.

A imagem traz uma mensagem expressa na fita, o conhecido bordão L'Union Fait La Force (“A União Faz a Força”, em francês), uma divisa inspirada em Esopo que tornou-se patrimônio de muitos movimentos libertadores.

Atente-se que este brasão de armas figura exatamente no centro da bandeira nacional do Haiti. 

A primeira vista, trata-se formalmente de uma bandeira oficial, símbolo máximo de um Estado independente. É o que o sentido  visual imediato comunica aos não iniciados.

Todavia, é interessante notar que embora a simbologia seja em princípio europeia - tambores, flâmulas, baionetas, canhões, fuzis, etc. - o texto visual está calcado na vivência nacionalista local, que paralelamente à interpretações de cunho mais institucional, permitem de igual modo uma vinculação com a religião vodu e com o acervo cultural haitiano.

Isto é bastante claro na palmeira, eixo da imagem e representação simbólica da independência, um claro elemento da flora local, por sinal sustentando o barrete frígio, o que já sinaliza para uma reinterpretação imagética com base na experiência haitiana. 

A corrente partida, neste senso, é uma clara indicação de que este corpo de ideias vinculou-se, no Haiti, à extirpação total e absoluta da escravatura, item da pauta independentista latino-americana que no final das contas, somente foi levada até suas últimas consequências pelos revolucionários haitianos. 

O tambor, instrumento sonoro que na cota de armas aparece na versão europeia, pode por outro lado ser uma evocação codificada dos tambores do Vodu, religião intrinsecamente vinculada à rebelião dos escravos negros.

Aliás, o vermelho e o azul, institucionalmente codificados como representação dos escravos e dos mulatos - atores por excelência da luta anticolonial - são no Vodu haitiano as cores de Ougou ou Ogun, Orixá da guerra.

De acordo com as narrativas da religião Vodu - assim como para o Vodum da tradição Ewe-Fon, para o Candomblé brasileiro, para o Vudu da Louisiana e para a Santeria de Cuba - Ogun controla e está no comando de imensos poderes. 

Altamente respeitado e temido, Ogun ensinou a Humanidade como conquistar e como dominar o medo, o fogo e as armas. É por isso que algumas pessoas se referem a ele como um Espírito ferreiro ou o Deus de Ferro, metal com o qual as armas são feitas. 

Neste sentido, Ogun torna-se herói do povo haitiano, espírito de coragem, expressão da autodeterminação nacional.

Além disso, a cor verde na iconografia Vodu possui vários significados: abundância, fertilidade, riqueza. Mas também implica em renascimento. Isto é: independência. 

O amarelo está relacionado ao sucesso: justamente a cor da palmeira, dos canhões e dos mastros. Ou seja: vitória contra os franceses com base na identidade e na força das armas.

Quanto ao bordão, a mensagem confirma que se tratou de uma rebelião generalizada formando um só corpo de insurgentes, onde a força, no caso, voltou-se contra o poder colonial estrangeiro e a elite latifundiária francesa.

Expressão da identidade haitiana, a bandeira desta república negra (que por sinal pagou um preço altíssimo por sua ousadia, sendo hostilizada sem tréguas pelo chamado "mundo civilizado"), demonstra, portanto o quanto os símbolos mais profundos e amados podem estar presentes e atuantes, veiculando sentidos que em princípio, seriam somente um prosaico lugar comum.

Esta é a predisposição demonstrada pela bandeira haitiana. Mas também uma volição de todos as sociedades e culturas humanas. 

Uma clara demonstração do quanto os símbolos mais profundos animam a alma de povos, grupos e nações.



Esta e outras notas histórico-culturais estão comentadas e indexadas à obra AMÉRICA LATINA: A INDEPENDÊNCIA INACABADA (Maurício Waldman, Editora Kotev, 2016). 





SAIBA MAIS:

Portal da Livraria Cultura (São Paulo, Brasil):
http://www.livrariacultura.com.br/p/america-latina-104326843

Plataforma Internacional Kobo (Ottawa, Canada):
https://store.kobobooks.com/en-us/ebook/america-latina-1

MAURÍCIO WALDMAN é jornalista, antropólogo, pesquisador, editor, consultor ambiental e professor universitário. Autor de 16 livros e de mais de 600 artigos, textos acadêmicos e pareceres de consultoria, Waldman é graduado em Sociologia (USP (1982), Mestre em Antropologia (USP, 1997), Doutor em Geografia (USP, 2006), Pós Doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), Pós Doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e Pós Doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015).


PARA SEGUIR ESTE BLOG: Quem desejar seguir o Blog, existe um botão de Seguir destacado em azul localizado na lateral direita, disponível aos interessados que possuem uma conta Google, que poderão deste modo passar a receber automaticamente notificações a cada nova postagem em FOCO DE FATO.













Samy

Certamente o economista Samy Dana é um dos profissionais mais prestigiados da televisão brasileira.

Professor da conceituada Fundação Getulio Vargas (São Paulo, capital), Samy reúne à esta atuação a de ser comentarista do programa “Conta Corrente" (Globo News), disponibiliza diariamente seus pareceres na Coluna Online “Caro Dinheiro” (UOL), e também se distingue como colunista do Caderno “Mercado”, publicado pela Folha de São Paulo.

O economista é também conhecido pela fala mansa, pausada e direta, pelo semblante sereno, e como não recordar, pelas atitudes pouco ou nada convencionais que contrastam com a severidade habitual dos economistas.

Por exemplo, em Março de 2013, o despachado Samy Dana, vestindo camiseta preta e usando sandálias crocs simpaticamente verdes, apresentou-se no complexo da Fundação Getulio Vargas para ministrar uma aula especial: de música.

Pois é, Doutor em economia e especialista em finanças, Samy Dana naquela manhã de Março dissertou sobre criatividade para futuros administradores e economistas. Tudo no embalo da boa música executada com a colaboração da pianista Silvia Goes.

Sem dúvida alguma o cara é uma figura.

Samy é um dos raros professores de que se tem notícia num país que não consegue ganhar sequer um Prêmio Nobel (em qualquer área que seja), que rompe com o formalismo estéril de uma academia que não sabe a que veio, pouco produz e que ainda por cima se coloca numa torre de marfim.

Diferentemente, Samy Dana é um professor que interage com platéias e audiências, é brincalhão e se destaca em traduzir com singeleza conceitos complexos, que no caso das ciências econômicas, se transformaram em formulações áridas, antipáticas e herméticas, uma narrativa que o público leigo sequer consegue acompanhar.

Esta muralha de incompreensões erguida ao longo das últimas décadas é por sinal, uma das estacas que pavimentaram o ruinoso caminho pelo qual o país chegou ao fundo do poço neste ano de 2016.

Afinal, se ninguém consegue nem ao menos entender o que falam os economistas, como esperar participação para solucionar os problemas complexos da economia brasileira, que, aliás, atingem justamente os bolsos daqueles que não sabem o que está acontecendo e ademais, são obrigados a pagar a dura conta de erros que não cometeram?

Certo é que nada do que foi colocado admite qualquer dissociação com o sagrado rigor conceitual. Já disse alguém, seriedade não é sinônimo de sisudez, assim como alegria não é um atalho para a falta de bom senso.

Neste sentido, o esmero conceitual é a motivação básica do saber sistematizado, o combustível das mudanças essenciais para que as sociedades gratifiquem seus membros com paz, prosperidade e uma vida plena e feliz.

Pois então, como nenhum homem ou mulher deste mundo é onisciente - atributo que a tradição judaico-cristã reserva exclusivamente ao Altíssimo - Samy comete, tal como qualquer outro mortal, erros, deslizes e incorreções.

O que tenho a comentar aconteceu no segundo semestre do ano passado. Numa pausa em que decidi descansar um pouco da elaboração do relatório do meu terceiro Pós Doutorado (PNPD-CAPES, 2014-2015), liguei a televisão.

De pronto, lá estava o afável Samy Dana comentando sobre a gestão econômica da ex-presidente Dilma Rousseff.  

Com muita leveza analisava a absurda dependência brasileira das commodities, fruto de uma política econômica que vitaminou a temerária gestão econômica da Era Lula & Dilma Rousseff, que terminou indo pelos ares no mandato da preposta de Lula, a Senhora Rousseff.

Utilizando sentenças simples, de repente, porém, Samy derrapou numa explicação etimológica. Comentando sobre as commodities, retoricamente expôs o raciocínio que segue:

E o que são as commodities? São os bens básicos do comércio exterior. Commodity vem do inglês common. Isto é: comum”.

Acontece que o que foi dito por Samy é uma bobagem. Pelo jeito, o comentarista recorreu a uma analogia apressada de common, relacionando mecanicamente esta expressão à commodity.

Foi uma bobagem porque commodity simplesmente não provém de common.

Daí que vale a pena tecer um comentário sobre a origem da terminologia, de largo trânsito no jargão dos especialistas em economia.

Note-se que a economia reconhece como commodities todos os produtos in natura - ou seja, pouco ou nada processados industrialmente - obtidos pela agro-pecuária e extração mineral, que podem ser estocados por certo tempo sem perda sensível de qualidade.

Confira-se: esta definição também pode incluir insumos como a água doce em seu sentido amplo, que apenas ocasionalmente são indexados ao conceito. Mas recursos como as águas também constituem commodity, e, diga-se de passagem, das mais cobiçadas neste mundo crescentemente sedento.

Advirta-se que a palavra inglesa commodity - em contestação ao que é dito não só por Samy Dana, mas inclusive pelo público leigo - não procede de common, que neste idioma significa comum, vulgar, habitual ou banal.

Note-se que a palavra commodity entrou em uso coloquial na Grã-Bretanha ao longo do século XV, corruptela do francês commodité, cuja tradução usual é comodidade, facilidade ou conveniência.

Por sua vez, o termo francês tem origem no vernáculo latino commoditas, que significa adequação, conveniência ou vantagem.

Fato óbvio, com certeza a palavra commoditas induziu desdobramentos em termos de significados econômicos: oferecer algo adequado ao cliente, estar de prontidão na hora de oferecer um produto, vender o que oferece facilidade para obter lucro, etc.

Aproveitando a deixa, cabe lembrar que estes significados são uma possível origem das chamadas “lojas de conveniência”, encontradas em postos de gasolina ou outros pontos das cidades, uma espécie de pronto socorro de bens e produtos que nas altas horas da noite, não encontramos em lugar algum.

Seja como for e indo direto ao ponto, Samy fez uma explicação incorreta de um termo que deveria ser apreciado com um apuro muito maior.

A questão das commodities não é brincadeira. O caos econômico hoje existente no país teve por epicentro as ditas commodities. Portanto, o conceito seria merecedor de ponderação mais consistente.

Por definição, Samy Dana poderia ressalvar que uma política econômica baseada em commodities deveria primar pela adequação, conveniência ou vantagem.

Tal como o bom e velho latim nos ensina.

O desafio de ser alegre e lúcido em esclarecer sobre o universo fechado dos conceitos econômicos tem sido enfrentado com muito sucesso por Samy Dana.

Como foi rubricado, o país precisa de mais e não menos professores que satisfaçam o duplo protagonismo em transformar o que é conceito abstrato em significado palpável para a maioria dos cidadãos.

Isto em todas as áreas, disciplinas e campos do conhecimento.

Contudo, neste caso Samy Dana errou: commodity não tem origem em common. Este foi um tropeço banal, inadequado e inconveniente.

Algo que deve ser evitado. Principalmente porque assim se abre caminho para a irresponsabilidade da sisudez.

E de quebra, a desqualificação da seriedade da alegria.


PARA SABER MAIS SOBRE A ECONOMIA BRASILEIRA

THE COLLAPSE OF THE HIGH TECH SLUMS: ILLUSIONS OF THE PRESIDENTIAL ERA LULA & DILMA ROUSSEFF (O COLAPSO DAS FAVELAS HIGH TECH: ILUSÕES DA ERA PRESIDENCIAL LULA & DILMA ROUSSEFF). TEXTO DE LIVRE ACESSO (Free e-book).





THE COLLAPSE OF THE HIGH TECH SLUMS: ILLUSIONS OF THE PRESIDENTIAL ERA LULA & DILMA ROUSSEFF está disponível para leitura gratuita. Para acessar e ler, basta instalar o aplicativo KOBO. Qualquer dúvida ou dificuldade, a EDITORA KOTEV está permanentemente disponível para auxiliar: atendimento@kotev.com.

LINKS:

LIVRARIA CULTURA (São Paulo, Brasil):

PLATAFORMA INTERNACIONAL KOBO (Ottawa, Canadá):

LIBRERIE LA FELTRINELLI (Milano, Itália): 


CONHEÇA OUTROS TÍTULOS DE MAURÍCIO WALDMAN NA FORMA DE E-BOOKS:

Portal da Livraria Cultura:

Plataforma Internacional Kobo:

Librerie La Feltrinelli:


MAURÍCIO WALDMAN é jornalista, antropólogo, pesquisador, editor, consultor ambiental e professor universitário. Autor de 16 livros e de mais de 600 artigos, textos acadêmicos e pareceres de consultoria, Waldman fez três traduções matriciais: Manifesto Eco Modernista (An Eco Modernist Manifesto, Breakthrough Institute), inglês-português (2015), O Ecologismo dos Pobres, de Joan Martínez Alier (2007), do espanhol para o português e Cinquenta Grandes Filósofos, de Diané Collinson (2004), do inglês para o português. Maurício Waldman é graduado em Sociologia (USP (1982), Mestre em Antropologia (USP, 1997), Doutor em Geografia (USP, 2006), Pós Doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), Pós Doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e Pós Doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015).


PARA SEGUIR ESTE BLOG: Existe um botão de Seguir destacado em azul localizado na lateral direita, disponível aos interessados que possuem uma conta Google, que poderão deste modo passar a receber automaticamente notificações a cada nova postagem em FOCO DE FATO.